FOGO SAGRADO

10 10 2011

Sinopse

Ruth Barron, uma bela jovem que mora com os pais e irmãos no pequeno vilarejo de Sans Souci, na Austrália, sente que algo está faltando em sua vida, mais especificamente na cultura ocidental.  Decide, então, viajar para a Índia onde se integra à legião de fanáticos de um guru, Chidaatma Baba.  Lá, ela passa a se chamar Nazni e a se vestir com o sári, traje nacional das mulheres indianas.

Seus familiares ficam alarmados e tomam a decisão de reconquistar sua filha, utilizando os serviços de um conselheiro espiritual americano, P. J. Waters.

(para ler mais clique no link abaixo)

http://www.65anosdecinema.pro.br/1617-FOGO_SAGRADO_%281999%29

 

————————————————————————————————-

Reflexões sobre o filme

Todos nós possuímos aspectos ainda não conhecidos ou integrados na consciência. Um desses aspectos, nosso lado destrutivo, nos traz muitos problemas e sofrimentos. Para alcançarmos uma vida plena e feliz, é muito importante conhecê-lo e identificar onde ele atua em nossa vida. Esse aspecto que podemos chamar de “eu destrutivo” tem muita força e vitalidade, é muito antigo e faz parte da nossa humanidade. (clique para ver mais)

O filme Fogo Sagrado é rico em conteúdos, principalmente relacionados com a sombra e as distorções humanas,  ressaltando a sexualidade e o prazer atrelado a dor.

O personagem PJ (Harvey Keitel) representa o estereótipo da “máscara do poder distorcido” ou defesa da agressividade. Possui comportamento presunçoso, se acha o “dono da verdade”, acredita que tenha controle das situações, que seja bem sucedido em tudo que faz, aparenta ser forte, durão, usa da vontade e inteligência para garantir o cumprimento de suas metas. Acredita dessa forma, que tenha controle suas emoções e busca controlar o mundo.  Confia que detém o saber, as certezas e superestima suas qualidades de gerenciamento de si mesmo.

PJ Waters sabia do risco ao aceitar a tarefa de resgatar Ruth das influências do guru indiano e trazê-la de volta a realidade, sobretudo sozinho. Cedeu, no entanto, motivado provavelmente por se tratar de um desafio e por encantar-se com a beleza e jovialidade dela.

A personagem Ruth (Kate Winslet) poderia dizer que representa o estereótipo da distorção da “máscara amor” ou a defesa da submissão. Possui um comportamento simpático, sensível, emocional, não se valoriza o suficiente, comunicativa, alegre, envolvente, amorosa, anseia ser acolhida e salva. É sonhadora e tende a entregar seu próprio poder nas mãos do outro e assim ter garantias de ser amada, mesmo que de forma fantasiosa.

Sua mãe complementa esse tipo de defesa (máscara do amor) com a manipulação pela culpa e vitimização,  somatização com intuito de controle, lamentação, submissão, dependência, necessidade de agradar, ingênua, não tem acesso  a raiva, tem dificuldade em dizer não e colocar limites,  sensibilizando os outros para sua dor.

No desenrolar do filme na tarefa de resgatar e salvar a sanidade de Ruth , PJ vai perdendo a sua própria sanidade e mergulhando nas suas próprias sombras e distorções.

Ruth dá espaço também para que sua sombra  e distorções se revele a medida em que a batalha entre ambos se trava num verdadeiro duelo ou jogo de braço, saindo da proposta inicial, o aspecto religioso e indo para o sexual.

O enredo do filme nos dá a oportunidade de conhecer a distorção por trás da defesa,  principalmente do poder (agressividade) e da amorosidade (submissão). Essas distorções normalmente são inconscientes, não sendo assim percebidas pelas pessoas.

No personagem PJ, fica evidente o comportamento de abuso de poder, coação e opressão, dureza,  subjugação, sedução para controle, comportamento invasivo, competição, vaidade excessiva, sexo desconectado de afeto como consumo de prazer pelo prazer (com Yvonne).

A personagem Ruth, evidencia o comportamento sedutor para obtenção do seu desejo, dissimulação,  negando suas próprias distorções, obstinação atendendo seus próprios anseios sem cuidar do seu equilíbrio e sentimento de superioridade espiritual.

No duelo entre os personagens principais, vai desvelando mais e mais o lado destrutivo como defesa extrema para proteção da dor. Esse aspecto,  poderíamos chamar do “eu inferior” ou “lado sombrio da sombra”.

Esse lado fica explícito quando o personagem PJ manifesta crueldade ativa, endurecimento, congelamento e entorpecimento dos sentimentos,  disputa destrutiva, malícia, prazer associado a dor, rendimento como forma de conquista, auto-desqualificação, autopunição, auto humilhação e descontrole.

A personagem Ruth também manifesta crueldade ativa,  através da humilhação, endurecimento, congelamento e entorpecimento dos sentimentos, disputa destrutiva, vingança, malícia, desprezo, raiva ferina, sedução para subjugar, prazer no jogo de envolver sem se entregar e assim obter controle e poder.

Quando a máscara e auto-imagem idealizada de PJ Waters se quebram, mergulha na vulnerabilidade, na dependência, na derrota, na humilhação (o que provavelmente sempre evitou). Conecta seu desamparo original e desmonta, ficando totalmente a mercê  de ser acolhido e visto por ela.

Ruth, que inicialmente se deliciava com seu poder e triunfo, entra também na dor (com o pedido de PJ para que seja “amável”), com isso fica vulnerável, permitindo a quebra da sua autoimagem de “boa pessoa” e percebendo mais profundamente seu congelamento afetivo, além de maior percepção da sua capacidade destrutiva.

O ápice do filme é quando Ruth sensibilizada pelo estado de PJ Waters,  entra em conexão com seu self (Eu Superior) e permite vir a tona as virtudes reais de amor e compaixão e dessa forma pode acolher verdadeiramente, permitindo a expressão de sua verdadeira natureza.

No final, em posse do seu Eu Real (Eu superior + Eu inferior), Ruth, retoma sua busca espiritual a partir de valores mais reais e verdadeiros. PJ Walters é perdoado por sua companheira, torna-se pai de gêmeos, escreve o segundo livro sobre “Um homem e seu anjo vingador’. De alguma forma ambos foram “vencedores” no final, pois somente através da exteriorização dos nossos conflitos e distorções que poderemos fazer as transformações necessárias. O filme nos mostra a humanização dos personagens principais,  na medida em que permite a exteriorização do lado destrutivo e também dos aspectos saudáveis da natureza humana.

Por Flávio Vervloet

Anúncios




O Poder das Trevas

9 03 2011

Informações Técnicas
Título no Brasil:  O Poder das Trevas
Título Original:  Legend of Earthsea
País de Origem:  EUA
Gênero:  Aventura
Classificação etária: 14 anos
Tempo de Duração: 147 minutos
Ano de Lançamento:  2004
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.:  Alpha Filmes
Direção:  Robert Lieberman

Sinopse

Protegido pela Supra Sacerdotisa Thar nas catacumbas de Atuan, o Amuleto da Paz assegurou por séculos em Earthsea o equilíbrio entre humanos e dragões. Agora o futuro não parece tão promissor pois, em decorrência de um ataque do rei invasor Tygath, o amuleto foi quebrado e uma das partes sumiu. A única chance de resgatar a paz se concretiza em um jovem ferreiro e aprendiz de mago chamado Ged. Dos labirintos dos Inominados às câmaras secretas de Earthsea, Ged, a sacerdotisa Tênar e Ogion enfrentarão perigos fantásticos numa jornada mágica para restaurar a Paz e enfrentar o Rei Tygath.

http://www.interfilmes.com/filme_15722_O.Poder.das.Trevas-(Legend.of.Earthsea).html

Para ver o filme: http://filmesmegavideo.net/o-poder-das-trevas-dublado-online/

————————————————————

Reflexões sobre o filme

Este é o título sugestivo de um filme interessante. Trata-se de um épico que tem lugar num espaço-tempo do tipo “era uma vez” mas que retrata fielmente lutas humanas bem atuais. Batalhas facilmente  observáveis nas politicas interna e externa dos países, nos grandes e pequenos dramas humanos e se formos bem perspicazes, dentro de nós.

Junte os ingredientes: busca pelo poder a qualquer preço, imprudência e impaciência,  medo e coragem, orgulho e humildade e finalmente a busca pela eterna juventude e temos a mistura perfeita de um enredo que prende a atenção até o final. Claro que não podem faltar a mocinha, o herói, o vilão e o amigo fiel.

O filme começa numa pequena vila perdida, não se sabe onde. Um jovem orfão de mãe, quer algo mais da vida do que seguir os passos de ferreiro do pai. Acontece que ele tem mesmo um dom e acaba como aprendiz de um grande mago, à moda antiga, que sugere que ele comece de baixo e vá galgando os degraus do conhecimento, mas o futuro herói é impaciente e quer subir logo, sendo então encaminhado para uma escola de Magia, onde é claro,  vamos encontrar o filhinho de papai pronto a humilhar o insignificante filho do ferreiro sem pedigree. E numa competição de egos, daquelas que todos se envolvem algumas vezes ao dia, nosso filho do ferreiro, pretendente a mago evoca os mortos, e, opa, por engano liberta um poderoso ser das trevas, chamado um dos “inominados”, que passa a persegui-lo.

Ele perde o posto de aluno e passa a fugir do seu algoz.

Paralelamente conhecemos um templo que guarda em seu labirinto subterrâneo a porta de entrada onde os poderes do mal – os inominados – estão trancafiados. Uma venerável sacerdotisa guarda o local e é responsável por passar a sua sucessora as chaves e as palavras rituais que protegem a porta.

Claro que o templo se situa nas terras de um rei sanguinário e autoritário que deseja poder e juventude eternos e vai tentar por todos os meios alcançar seus objetivos.

Nosso herói tem então seu primeiro embate com o poder do mal que liberou e foge apavorado se refugiando junto ao seu primeiro mestre.

O Mestre verdadeiro mostra o caminho e encoraja o pupilo a enfrentar o que teme e ver o que acontece. A única forma de vencer o poder do mal seria saber seu nome e isto ninguém sabe.

O jovem então, já um pouco mais calejado, se conscientiza que precisa assumir responsabilidade por sua vaidade e imprudência e segue em busca do seu destino.

Importante notar que ele não culpou a ninguém ou ficou chorando sua má sorte. Fez o que julgou ser o certo.

Ele então encontra sua missão pessoal que é destruir o poder do mal que inadvertidamente liberou e manter a paz do reino conhecido já que detém metade do amuleto que assegura que todos os “inominados” fiquem onde estão, presos no labirinto do templo.

Vale ressaltar que seu algoz se fortalece a medida que nosso herói o teme e passa a cometer atrocidades pelas quais nosso Herói é responsabilizado.

E não é isso que acontece na vida? Ficamos colocando a culpa de nossa criação fora de nós, por não reconhecermos a parte em nós que cria destrutivamente.

Quando nosso herói, levado pela vaidade, faz bobagem, ele volta e pede ajuda ao velho mago retomando o caminho que é mais longo embora mais seguro. No caminho vai desenvolvendo a força necessária para encarar seus medos e enfrentar o que eles encobrem.

“Se você continuar fugindo, o mal lhe guiará e escolherá seu destino.”

O filme trata sobre a milenar luta entre o bem e o mal. É uma luta travada no nível individual e coletivo. Sendo o coletivo o reflexo da luta interior.

Somos ambiciosos e impacientes e queremos alcançar nossas metas sem precisar pagar o preço devido por elas. Nossas escolhas então trazem consequências e ao assumir responsabilidade por elas vamos galgando lentamente os degraus que nos levam a maior consciência. E quando somos conscientes temos poder de escolha e passamos a criar a partir dessa visão mais ampla, alcançando melhores resultados.

A reviravolta, a mudança de rumo é o momento em que o herói é instruído pelo Mago a passar de perseguido a perseguidor. Pois se gastamos nossa energia fugindo do mal ao invés de enfrentá-lo, seremos vencidos por ele. Mas se nós passamos a persegui-lo… essa é uma investigação interessante. Vejamos o que acontece.

Pois no momento em que nosso herói resolve enfrentar o “inominado” que o persegue ele percebe que temer ou ficar com raiva e rejeitá-lo é que confere força àquele ser e finalmente percebe que o nome do inominado é o mesmo dele. Era uma parte que precisava ser aceita e assim o fez, recuperando o poder contido na sombra. E se tornou inteiro, forte e capaz de levar a cabo sua tarefa frente ao reino: mas, ao invés de manter os poderosos e eternos “inominados presos” ele os libertou surpreendendo a todos. Pois tinha descoberto o segredo da sombra. E então, a paz se fez e foram felizes para sempre.

Quando lutamos contra o mal que está aparentemente fora de nós estamos na ilusão pois, a luta real é travada no interior. Não podemos nos entregar ao medo e sim fortalecer nossa fé com empenho diário e vigilância. A saída não é negar, temer ou se encolerizar contra o mal, mas reconhece-lo como parte de nós tomando posse da energia ali armazenada e que somos nós mesmos em última instância. Não nos tornamos melhores ou especiais, apenas inteiros e isso faz uma grande diferença.

Por Lucia Teixeira Rosa – Regional Distrito Federal





9 – A Salvação

15 01 2011

cartaz9brasil

Gênero: Animação, Aventura, Fantasia e Ficção Científica
Duração: 79 min.
Origem: Estados Unidos
Estréia 09 de Outubro de 2009
Direção: Shane Acker
Roteiro: Pamela Pettler e Shane Acker
Produção: PlayArte
Censura: Livre
Ano: 2009

Sinopse

Quando o boneco 9 ganha vida, ele se encontra num mundo pós-apocalíptico em que os humanos foram dizimados. Por acaso, encontra uma pequena comunidade de outros como ele, que estão escondidos das terríveis máquinas que vagam pela Terra com a intenção de exterminá-los. Apesar de ser o novato do grupo, 9 convence os demais que ficar escondido não os levará a nada.

Eles devem tomar a ofensiva se quiserem sobreviver e, antes disso, precisam descobrir por que as máquinas querem destruí-los. Como eles saberão em breve, o futuro da civilização pode depender deles.

Fonte da sinopse e ficha técnica: http://cinema10.com.br/filme/9

Para ler mais: Animação “9 – A Salvação” é produzida por Tim Burton – O Globo – http://tinyurl.com/yblax8t

———————————————————————————————————————————————-

Reflexões sobre o filme

Um filme de animação com diversão e profundidade. Com muitas mensagens e com muito material para reflexões.

O roteiro é de um futuro assolado por máquinas mortíferas que destroem a humanidade, neste filme, no entanto, há uma mensagem de esperança. A de que se unirmos as diferenças, dentro e fora de nós, criaremos força de renovação e vida. Um filme que pelo que tudo indica é baseado no Eneagrama ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Eneagrama ) que descreve os 9 tipos de personalidade.  Este sistema descreve a queda e a ascensão possível da consciência humana, segundo nove padrões.

Os nove bonecos sobreviventes foram criados a partir dos nove aspectos de seu criador, cada aspecto diferente e complementar aos outros. A máquina também foi criada a partir da distorção e limitações dos nove tipos, e representa a morte e a aniquilação. Vida e morte, construção e destruição, união e separação, dualidades explícitas no filme que aponta a escolha da integração e união como antídoto para o mal.

Há uma fala que se repete muitas vezes no filme “busque na fonte…”. Na fonte está a resposta – no criador, na alma, no espírito do homem.

Ao “pacificador”, o tipo 9, ficou a tarefa de agregar o grupo e levá-los à meta de salvar os integrantes e destruir o monstro. No entanto,   só com a união das qualidades de cada tipo, o 9 pode levar a cabo sua missão. E curiosamente o monstro era movido pela “vida” de cada tipo em distorção. A luta entre os 9 e a máquina lembra o mito do herói enfrentando seus dragões, simbolizando a luta e batalha interior pela supremacia do bem.

Um filme encantador que vale a pena ser visto.  O diretor é Tim Burton, um nome  já bastante conhecido,  dirigiu  “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, “A Noiva Cadáver” e  “O estranho mundo de Jack”, entre outros. Divirta-se e inspire-se.

Por Flávio Vervloet





Dúvida

12 10 2009

138_concurso_duvida_g

Sinopse

O carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx. A diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. Um dia a irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas sobre o padre Flynn, de que esteja dando atenção demais a Donald. É o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola.

Fonte da sinopse: http://www.adorocinema.com/filmes/duvida/duvida.asp

Reflexões sobre o filme

Este é um filme inteligente e bem elaborado que nos induz à confusão e à dúvida ao longo de todo seu enredo. A irmã, desde o início, torna-se alvo de preconceito, pois somos levados a percebê-la como “megera” e o padre como “bonzinho”. Normalmente na vida, quando em dúvida, todos nós buscamos nos firmar em uma “verdade”, mesmo que encontrada ou construída por conclusões apressadas, para aliviarmos a ansiedade de não saber discernir o “certo” do “errado”. No caso do filme, a tese de que a irmã é megera e o padre é humano e inocente. No transcorrer da história, no entanto, os fatos vão se esclarecendo, vamos percebendo outros aspectos importantes, que nos faz não ter mais certeza de quem de fato é culpado ou inocente, bom ou mau. E podemos ver, ao final, que os três personagens principais têm verdades e distorções, de tal forma que não é tão simples julgá-los, tal como achávamos ou gostaríamos.

O filme retrata a complexidade da verdade e o quanto, em sua busca, corremos o risco do erro e da injustiça. Mais: o filme nos mostra o quanto, apesar de nossas certezas internas, paira sobre nós a dúvida.

Temos a tendência de simplificar as situações em nosso julgamento, definindo rapidamente quem é o “mocinho” e quem é o “bandido” e não percebemos o quanto é difícil julgar e como é complexo  discernir o certo do errado. Declaramos rapidamente alguém culpado ou inocente, concluindo apressadamente a favor de um em detrimento de outro, sem perceber que a superficialidade dos elementos que temos para chegar a essa ou aquela conclusão.  O filme nos faz refletir como é difícil agradar as pessoas e ao mesmo tempo fazer valer a verdade.  Faz-nos lembrar também o quanto é necessário confrontarmos a nossa consciência e nos enxergarmos humanos, percebendo que de fato, em função da nossa complexidade, temos, ao mesmo tempo, um lado bom e outro ruim. Por isso, nem sempre estamos totalmente certos ou com a verdade, como gostaríamos. Precisamos enfrentar a nossa conivência e leniência com as nossas distorções,  muitas vezes ocultadas com nossa persona.

Será que basta reconhecermos nossa culpa ou o nosso erro? Ou é necessário também reconhecermos a nossa impotência em cessar de atuá-lo? E se este é o caso, será que a nossa impotência não indica que precisamos de ajuda para deter o comportamento em que estamos aprisionados?

É comum termos pena de nós mesmos e, conseqüentemente, dos outros. O que, num certo sentido, pode até explicar a conivência com distorções de conduta, seja com as nossas distorções ou a de outros.  Isso também explica, num outro extremo, quando somos implacáveis, também com as nossas ações e a de outros. Muitas vezes, para não sermos coniventes, vamos  em direção ao lado oposto e nos tornamos rígidos, duros e inflexíveis.

Existe uma verdade além das nossas verdades pessoais? Ou basta ter mais argumentos, argúcia, inteligência, esperteza para estarmos certos e por isto mesmo com a verdade? Comumente, cada um constrói suas verdades pessoais baseado em conclusões que tira a partir de suas experiências de vida. Conclusões estas que se tornam o filtro pelo qual interpretamos a realidade. Julgamos e agimos a partir deste discernimento pessoal.

Por toda esta reflexão que provoca, Dúvida é um filme que vale a pena ser visto.  Isso sem contar o fato de que, como sempre, Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman dão um show de interpretação.

Por Flávio Vervloet





CRASH – No Limite

30 07 2009

62

Sinopse
Jean Cabot (Sandra Bullock) é a rica e mimada esposa de um promotor, em uma cidade ao sul da Califórnia. Ela tem seu carro de luxo roubado por dois assaltantes negros. O roubo culmina num acidente que acaba por aproximar habitantes de diversas origens étnicas e classes sociais de Los Angeles: um veterano policial racista, um detetive negro e seu irmão traficante de drogas, um bem-sucedido diretor de cinema e sua esposa, e um imigrante iraniano e sua filha.


Reflexões sobre o filme


Tema:
Preconceito, intolerância racional, violência urbana, sombra social.
Nos tempos modernos, nos grandes centros é comum que vivamos cercados de violência, tensão social, abuso de poder, desigualdade social e convívio entre diferenças sociais, culturais, financeiras, e raciais.
Muitos dos grandes centros urbanos viraram um barril de pólvora no limite de explodir, e de onde geram muitos acidentes.
O filme reflete a tensão social urbana e intolerância entre os vários grupos: Entre grupos raciais, entre os grupos originais dominantes e as minorias que o constituem, quer em suas origens ou fruto da imigração. A intolerância entre os próprios integrantes dos grupos raciais entre si e a intolerância também entre os que seguiram rumos diferentes na vida.
Uma intolerância onde competição, luta, alienação e indiferença afeta a maioria e a paz habita somente na inocência de poucos.
Outra reflexão importante que traz o filme é a de como a intolerância, o medo, a revolta e a amargura de uma vida endurecida geram a violência, o crime e a situação extrema de morte. O medo tanto quanto a revolta nos faz armados, tensos, impacientes, intolerantes, reativos e agressivos. Outra reação no extremo oposto é a alienação, a anestesia dos sentidos, a paralisia e a acomodação, que também são defesas ante ao desagradável ou ao perigo. Até que ponto é necessário atingirmos o limite, o risco extremo? O limite para despertarmos de nossa anestesia aos fatos e ao que acontece em torno de nós ou para despertarmos do outro extremo a intolerância, revolta e medo? O que é preciso acontecer para que nos desarmemos e acordemos para a realidade simples e profunda da neve que cai, do abraço de um estranho, de um “milagre” em que as circunstâncias evitam a morte de uma inocente criança.
O sofrimento humano não aliviado pelo que há de melhor no íntimo de cada um gera o endurecimento, a amargura, o pessimismo, a anestesia dos sentidos e das emoções para sobrevivência. Mas como viver como mortos vivos e perdemos o contato com a vida que há em nós? Se ficarmos reféns das nossas emoções conturbadas ou mesma do não sentir, como fazer contato com as emoções e os sentimentos leves e bons?
Talvez não haja como negar a violência e os desencontros de nossa sociedade, não há como fantasiar e fazer de conta que a realidade urbana crua não exista e que possamos conviver somente com boas emoções e sentimentos. Talvez, até que a sociedade, os governantes e nós mesmos despertemos e possamos gerar mudanças nas causas profundas destes desajustes, temos que aprender a conviver com esta situação limite. Nestas condições é necessário nos acautelarmos, nos defendermos dentro da lei e aprendermos a conviver com estes desequilíbrios sociais, porém sem no entanto nos perdermos de nós mesmo, do outro, da vida e da beleza que há em nosso íntimo. Porque se não, talvez só nos reste o acidente, a crise para nos ajudar a despertar para o humano que existe em nós.
O filme também traz um contraste extremo nas cenas em que o mesmo indivíduo que abusa do poder, da autoridade humilhando e desrespeitando aparece numa outra situação salvando a mesma pessoa em um acidente que seria fatal. Em outra em que o mesmo individuo que salva um homem perturbado emocionalmente de ser morto em blitz e cerco policial é aquele que por medo mata uma pessoa equivocadamente e depois encobre o crime.
Parece que habita em nos o herói e o criminoso, e também o vilão e a vitima. dependendo das circunstancias um destes eus toma a cena e atua. A questão é qual destes eus queremos nutrir e fortalecer? Como não alimentar o nosso lado distorcido se filtrarmos continuamente somente pensamentos pessimistas, de revolta, de medo, pavor e de desesperança?
Existe um conceito Junguiano de sombra social que diz que a sombra e distorção social é uma somatória de nossas sombras e distorções pessoais. É comum nos horrorizarmos com os acontecimentos sociais que a evidenciam e é comum também entrarmos no julgamentos e nos eximirmos de nossa parte. Como contribuímos para criar a realidade crua que está ao nosso lado e em torno de nós? Na alienação, na acomodação, no medo, na indiferença, na vitimização, na revolta, na intolerância, na impaciência, na agressividade, na reatividade, na própria violência? Mesmo não atuando diretamente, com o que somamos para criar esta psicosfera de terror e crimes?
Será que somos vitimas reais e inocentes dos acidentes e crashes de nossa sociedade?
Por Flávio Vervloet




Capote

30 07 2009

38

Sinopse
Em novembro de 1959, Truman Capote (Philip Seymour Hoffman) lê um artigo no jornal New York Times sobre o assassinato de quatro integrantes de uma conhecida família de fazendeiros em Holcomb, no Kansas. O assunto chama a atenção de Capote, que estava em ascensão nos Estados Unidos. Capote acredita ser esta a oportunidade perfeita de provar sua teoria de que, nas mãos do escritor certo, histórias de não-ficção podem ser tão emocionantes quanto as de ficção. Usando como argumento o impacto que o assassinato teve na pequena cidade, Capote convence a revista The New Yorker a lhe dar uma matéria sobre o assunto e, com isso, parte para o Kansas. Acompanhado por Harper Lee (Catherine Keener), sua amiga de infância, Capote surpreende a sociedade local com sua voz infantil, seus maneirismos femininos e roupas não-convencionais. Logo ele ganha a confiança de Alvin Dewey (Chris Cooper), o agente que lidera a investigação pelo assassinato. Pouco depois os assassinos, Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Dick Hickock (Mark Pellegrino), são capturados em Las Vegas e devolvidos ao Kansas, onde são julgados e condenados à morte. Capote os visita na prisão e logo nota que o artigo de revista que havia imaginado rendia material suficiente para um livro, que poderia revolucionar a literatura moderna.

FONTE:http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/capote/capote.asp

Reflexões sobre o filme
Mostra a história de dois homens que se aproximam a partir de uma dor semelhante. Ambos sofreram de maus tratos e abandono na infância. Numa frase do filme Capote ele diz: Somos muito parecidos, é como se viéssemos de uma mesma casa, a diferença é que saí pela porta da frente e você (o condenado) pela porta dos fundos.

Será a destrutividade dos condenados pior do que a do Capote? Que o usou a partir da manipulação e pressão afetiva em momento tão desesperador? Quem era o bandido, somente o que estava preso? Será que sair pela porta da frente é quem se omite, se oculta e mente ou quem assume a sua própria destrutividade, e valoriza o pouco que recebe.

Será a crueldade ativa ou explicita e a crueldade oculta somente presente em alguns seres humanos ou uma condição comum a todos em proporções diferentes? Acolher nossas distorções e assumi-las provavelmente nos dá também a possibilidade de sermos verdadeiros, de trazer a luz o que se oculta indo alem da vergonha.

Por Flávio Vervloet





A Vila

30 07 2009

Avila

Sinopse
Em 1897 uma vila parece ser o local ideal para viver: tranqüila, isolada e com os moradores vivendo em harmonia. Porém este local perfeito passa por mudanças quando os habitantes descobrem que o bosque que o cerca esconde uma raça de misteriosas e perigosas criaturas, por eles chamados de “Aquelas de Quem Não Falamos”. O medo de ser a próxima vítima destas criaturas faz com que nenhum habitante da vila se arrisque a entrar no bosque. Apesar dos constantes avisos de Edward Walker (William Hurt), o líder local, e de sua mãe (Sigourney Weaver), o jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) tem um grande desejo de ultrapassar os limites da vida rumo ao desconhecido. Lucius é apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), uma jovem cega que também atrai a atenção do desequilibrado Noah Percy (Adrien Brody). O amor de Noah termina por colocar a vida de Ivy em perigo, fazendo com que verdades sejam reveladas e o caos tome conta da vila.

FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/vila/vila.asp

Reflexões sobre o filme

Este filme reflete a tendência comum do ser humano em tentar encobrir o mal, negando, escondendo, fugindo e ocultando-o como um segredo.No filme, a vila é uma tentativa de criação de um local, um mundo ou uma realidade sem maldade, sem distorções, onde somente o bem e a inocência tenham lugar, como um oásis no meio de um deserto, um lugar puro em meio à feiúra do mundo e da realidade humana.

Segundo Jung, tudo que negamos em nós, coisas boas e ruins, viram nossas sombras. Afirma também que é da natureza humana termos múltiplos aspectos polarizados e contrários. Tendemos em nosso dualismo negar o mal em vez de transformá-lo e integrá-lo. Desta forma, escondemos este nosso aspecto como um segredo que deve ser escondido a sete chaves, já que o tememos e sentimos dele vergonha.

Temos vergonha exatamente do que nos faz humanos. Ter o mal dentro de si não significa que tenhamos que atuá-lo ou usá-lo de forma destrutiva. Ao aceitar que isto é uma característica humana, podemos trazer às claras este aspecto, diminuir sua força e ter alguma escolha sobre ele. Aceitar sua existência sem negá-lo ou escondê-lo traz para nós força e coragem, escondê-lo gera medo e fraqueza.

Há linhas de psicoterapia que trabalham com estes aspectos sombrios quando necessitamos de ajuda externa. Mas procurar estar na verdade e termos a coragem de olhar e reconhecer nossas distorções sem culpa é algo que todos podemos fazer e é uma ação realista que nos fortalece.

Quantas pessoas, famílias, grupos, comunidades e sociedade são enfraquecidas pelos seus segredos. Os segredos geram pensamentos, mentiras, contaminam a confiança entre pessoas e a própria autoconfiança. Há um grande alívio quando nos liberamos do cárcere de nossos segredos e isto nos torna mais honrados .

A nossa honra está em sermos íntegros e verdadeiros, mesmo que falhos e humanos. Nossa honra não está na aparência e em nosso anseio de perfeição. No filme, um dos “anciãos” conclui: “perdi lá fora um familiar e aqui já perdi vários. Aprendi que o sofrimento faz parte da vida.”

Na “vila”, criaram uma realidade a parte, sustentada pelo terror e mentira com o intuito de encobrir a realidade comum e se afastar de uma sociedade violenta. Criaram uma comunidade “pura” e “inocente”, onde seus habitantes são humanos e imperfeitos, onde mais cedo ou mais tarde, o crime brota como uma realidade não transformada no coração e atos dos homens.

É mais fácil escravizarmo-nos do terror de um monstro externo que se perpetua na ignorância que enfrentar o “monstro” interno que poderia ser transformado. Ninguém precisa aceitar ou gostar da violência social e nem se adaptar a ela como algo desejável ou comum. Mas queiramos ou não a violência social é um reflexo de seus membros. A violência externa é o resultado da violência interna não transformada. Mas como transformar a violência interna sem aceitar sua existência como uma realidade humana? Como transformar a violência externa sem aceitá-la como fruto da “doença” individual de todos os seus membros e não de somente uma parte que tem que ser excluída, banida e castigada? Podemos até procurar proteção criando condomínios fechados, altos muros e fortalezas para nos afastarmos do fruto que nós mesmos ajudamos a criar. Mas levamos o inimigo dentro de nós para dentro da fortaleza, já que é parte de nossa natureza humana.

Como fortalecer o amor e a inocência em meio à mentira? Como preservar a inocência e proteção de nossos filhos sem ensiná-los a lidar com suas próprias destrutividades internas? Quanto tempo podemos afastá-los ou apartá-los do perigo, isolando-os da realidade humana à qual pertencem?

Por fim, o filme mostra uma saída no amor, que move montanhas, na cegueira que enxerga com os olhos da sabedoria dos sentimentos, e da coragem que se fortalece não no aparente bom senso, mas no ato humano de fazer o que tem que ser feito para preservar a vida digna sem medos.

Por Flávio Vervloet