Dúvida

12 10 2009

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Sinopse

O carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx. A diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. Um dia a irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas sobre o padre Flynn, de que esteja dando atenção demais a Donald. É o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola.

Fonte da sinopse: http://www.adorocinema.com/filmes/duvida/duvida.asp

Reflexões sobre o filme

Este é um filme inteligente e bem elaborado que nos induz à confusão e à dúvida ao longo de todo seu enredo. A irmã, desde o início, torna-se alvo de preconceito, pois somos levados a percebê-la como “megera” e o padre como “bonzinho”. Normalmente na vida, quando em dúvida, todos nós buscamos nos firmar em uma “verdade”, mesmo que encontrada ou construída por conclusões apressadas, para aliviarmos a ansiedade de não saber discernir o “certo” do “errado”. No caso do filme, a tese de que a irmã é megera e o padre é humano e inocente. No transcorrer da história, no entanto, os fatos vão se esclarecendo, vamos percebendo outros aspectos importantes, que nos faz não ter mais certeza de quem de fato é culpado ou inocente, bom ou mau. E podemos ver, ao final, que os três personagens principais têm verdades e distorções, de tal forma que não é tão simples julgá-los, tal como achávamos ou gostaríamos.

O filme retrata a complexidade da verdade e o quanto, em sua busca, corremos o risco do erro e da injustiça. Mais: o filme nos mostra o quanto, apesar de nossas certezas internas, paira sobre nós a dúvida.

Temos a tendência de simplificar as situações em nosso julgamento, definindo rapidamente quem é o “mocinho” e quem é o “bandido” e não percebemos o quanto é difícil julgar e como é complexo  discernir o certo do errado. Declaramos rapidamente alguém culpado ou inocente, concluindo apressadamente a favor de um em detrimento de outro, sem perceber que a superficialidade dos elementos que temos para chegar a essa ou aquela conclusão.  O filme nos faz refletir como é difícil agradar as pessoas e ao mesmo tempo fazer valer a verdade.  Faz-nos lembrar também o quanto é necessário confrontarmos a nossa consciência e nos enxergarmos humanos, percebendo que de fato, em função da nossa complexidade, temos, ao mesmo tempo, um lado bom e outro ruim. Por isso, nem sempre estamos totalmente certos ou com a verdade, como gostaríamos. Precisamos enfrentar a nossa conivência e leniência com as nossas distorções,  muitas vezes ocultadas com nossa persona.

Será que basta reconhecermos nossa culpa ou o nosso erro? Ou é necessário também reconhecermos a nossa impotência em cessar de atuá-lo? E se este é o caso, será que a nossa impotência não indica que precisamos de ajuda para deter o comportamento em que estamos aprisionados?

É comum termos pena de nós mesmos e, conseqüentemente, dos outros. O que, num certo sentido, pode até explicar a conivência com distorções de conduta, seja com as nossas distorções ou a de outros.  Isso também explica, num outro extremo, quando somos implacáveis, também com as nossas ações e a de outros. Muitas vezes, para não sermos coniventes, vamos  em direção ao lado oposto e nos tornamos rígidos, duros e inflexíveis.

Existe uma verdade além das nossas verdades pessoais? Ou basta ter mais argumentos, argúcia, inteligência, esperteza para estarmos certos e por isto mesmo com a verdade? Comumente, cada um constrói suas verdades pessoais baseado em conclusões que tira a partir de suas experiências de vida. Conclusões estas que se tornam o filtro pelo qual interpretamos a realidade. Julgamos e agimos a partir deste discernimento pessoal.

Por toda esta reflexão que provoca, Dúvida é um filme que vale a pena ser visto.  Isso sem contar o fato de que, como sempre, Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman dão um show de interpretação.

Por Flávio Vervloet

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