Choque de Classes

12 08 2009

CHOQUE DE CLASSES (2004)

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Sinopse

Homem cansado de rotina familiar com a esposa conservadora e com a irmã dominadora dirige-se a cidade para encontrar sua outra irmã, dona de boate, gerando um choque de classes tão divertido quanto surpreendente. Do mesmo diretor de Pauline & Paulette, filme que ganhou o Prêmio Ecumênico Especial do Júri em Cannes em 2001.

Reflexões sobre o filme

O filme trata do choque entre o tradicional e a transgressão do comum. É um olhar não preconceituoso e não discriminativo do diretor sobre o tema.

Tuur, um homem cansado da rotina em que vive, está profundamente mal-humorado no dia de seu aniversário de casamento. Ele tem um relacionamento tradicional, em que a rotina gerou apatia e estagnação. Além disso, o casal acomodou-se à presença de uma irmã de Tuur dominadora, manipuladora e geniosa. É possível que essa irmã também tenha se acomodado à situação.

Em determinado momento, essa incômoda situação gera fato inédito: Tuur resolve sair de casa e procurar sua outra irmã, que vivia situação oposta à dele. Ela sentia-se rejeitada pela família, por ter escolhido viver de forma e em local diferente.

A visita inesperada de Tuur à irmã de quem se distanciara leva essa personagem de volta ao passado, para rever fantasmas familiares. Contente com a presença do irmão, a irmã demonstra que o quer a seu lado, para fazer-lhe companhia e para compartilhar. O contato entre ambos traz novo significado à vida dessa irmã.

Com o afastamento de Tuur, sua mulher, Emma, encontra seu próprio valor, brilho pessoal, força e coragem para viver. Depois que marido e mulher passam pelas experiências necessárias à transformação de cada um, o que confere novo significado a suas vidas, eles se reaproximam de coração aberto. Após o reencontro, seguem juntos, felizes.

A vida seria mais fácil se as mudanças fossem encaradas como desafios e não como tragédias. Mas isso só seria possível se, em vez de culparmos os outros, assumíssemos a vida como destino pessoal criado, muitas vezes, por nós mesmos.

Frequentemente, a rotina, as regras, as normas, os papéis sociais geram estagnação e paralisam os indivíduos. Nessa situação, os sentimentos tornam-se inacessíveis, as sensações ficam entorpecidas e a razão resta embotada.

É comum a insatisfação, as frustrações, as doenças, os transtornos psíquicos ou algum acontecimento levarem-nos a situações de crise, que revira nossos conceitos, preconceitos e paradigmas. A crise nos acorda do torpor e movimenta a vida dentro de nós. A vida parece não suportar a estagnação e a tudo impulsiona em direção ao crescimento e à expansão.

Por Flávio Vervloet





Powder Blue

12 08 2009

POWDER BLUE (2009)

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Sinopse

Rose é uma stripper que, para salvar seu filho de doença terminal, tem sua vida entrelaçada com a de um ex-padre suicida, um ex-condenado e um agente funerário, em noite de réveillon.

Reflexões sobre o filme

Um filme denso, com forte carga dramática, no estilo de Crash e Magnólia. Os destinos de vários personagens se cruzam por caminhos espinhosos.

Há um desejo comum a todos os seres humanos: ter amor, felicidade, paz e uma boa vida. Mesmo que cada um interprete esses estados de alma de forma diferente, no fundo, de forma muito distinta e pessoal, buscamos as mesmas coisas. Com esse objetivo, cada um segue seu caminho, influenciado por seu passado; por suas experiências de vida; e pelo ambiente em que foi criado, incluindo família, amigos, escola, cultura e aspectos econômicos e sociais nos quais foi inserido.

Em função desses fatores, cada pessoa desenvolve uma forma de estar no mundo e de sobreviver. Mas, independentemente da direção e dos resultados dessas atitudes, que são induzidas por mecanismos de defesa e de sobrevivência, ansiamos por amor – sob a forma de aceitação, acolhimento e proteção –, por reconhecimento, por compartilhar e por nutrição afetiva.

Apesar de nossos anseios e necessidades serem semelhantes em algum nível, o resultado de nosso direcionamento nem sempre é o mesmo. Somos levados a pensar que, além da influência do meio e de tendências genéticas, há um “algo mais” que a ciência ainda não explica, que nos influencia a buscarmos caminhos que não compreendemos: o caráter.

Parece que nossas escolhas são menos gerenciáveis e voluntárias do que queríamos. Somos, muitas vezes, arrastados por impulsos e por motivações, por padrões de pensamento, por emoções e por atitudes que não dominamos ou, ao menos, não controlamos como gostaríamos.

O filme vale a pena ser visto. Trata de uma realidade profundamente humana, em que todos estamos insertos, ainda que nos sintamos acima dela. Todos vivemos pequenos e grandes dramas pessoais, que são, antes de tudo, profundamente humanos. As realidades desses dramas sociais e pessoais nos assemelham em algum nível, irmanando-nos.

A busca de um lugar para si, por caminhos diferentes. Um lugar-comum de solidão e de dor profunda que mora no coração anônimo da maior parte dos indivíduos em um grande centro urbano. O desespero de uma perda afetiva associado a sentimento de culpa e de castigo. A tentativa de reparar um passado desastroso. A busca desesperada de uma mulher para ajudar seu filho, que está em estado terminal e que representa o único sentido da vida dela. A carência e a solidão profundas aliviadas pela existência de um animal de estimação. O desejo de encontrar o amor em meio à tragédia, um sonho incansável de todo ser humano, ainda que alguns desistam dele.

Destaco três cenas do filme: a aproximação entre Qwerty (agente funerário) e Rose (stripper); o diálogo entre Charlie (ex-padre) e Lexus (travesti); e o encontro de Jack (ex-detento) e de Rose.

Rose é uma mulher jovem que, como muitas outras, procura atender a seus anseios sonhando com o estrelato. Como a maioria dos indivíduos que mora em grandes centros urbanos, que competem por vaga ou por espaço no mercado de trabalho, a protagonista almeja viver e, se possível, destacar -se por meio de conforto e de realização material.

No filme – e na vida –, quando nossos sonhos são esmagados pela dura realidade e as coisas não saem conforme planejado, temos de encontrar saídas para sobreviver. É nessa hora que nossos princípios e valores são testados.

Rose “cai” do estrelato no cinema para boates e clubes noturnos, onde começa a trabalhar como dançarina e stripper, para sobreviver e custear o tratamento do filho, vítima de acidente que o deixou em estado vegetativo em um hospital. Ela não tinha, na prostituição, uma escolha e anestesiava-se nas drogas, para se submeter às circunstâncias. No fundo, era uma pessoa perturbada por seu passado, carente e solitária, que segue os caminhos possíveis para realizar seus anseios. Queria o mesmo que todos nós: um lugar para si e ser feliz e amada.

Qwerty era uma pessoa boa, porém alienado e inábil na vida real. Tímido e fóbico social, sobrevivia isolando-se e esquivando-se de contato com a realidade e com as dificuldades da vida.

Em seu mundo à parte, ele interagia mais com animais e com pessoas mortas do que com indivíduos reais. Conservava, porém, princípios e valores que o levaram a preferir o fracasso financeiro a aceitar uma oportunidade financeira que envolveria a morte de um homem desesperado.

O encontro de Qwerty e Rose é marcado pela atração de dores e anseios semelhantes. Carentes, ambos viviam em solidão profunda, em suas almas ingenuamente infantis. Sentem-se seguros um com o outro, como se um espelhasse o outro, apesar de terem trilhado caminhos tão diferentes. O ponto marcante do encontro foi o acolhimento incondicional, bondoso e generoso prestado por Qwerty a Rose, que retribui da mesma forma. A bondade e o amor estimulam o melhor em nós, da mesma forma que a violência e a privação incitam o pior.

O caminho de Charlie cruza-se com o de Lexus. Ambos compartilham a dor da perda de um grande amor. Seguiram caminhos distintos na vida, mas irmanaram-se por meio da mesma dor; o sacro e o profano interligados pelo mesmo sentimento. Ambos atormentam-se por uma culpa não aplicável. Charlie sente-se responsável por uma fatalidade da qual foi apenas protagonista e não agente causador. Lexus culpa-se por não ser mulher e por não atender aos desejos de seu amado. Não aceita sua condição biológica, exigindo-se algo irreal: ser mulher. Por não sustentar o ódio por si mesmo, em momento de drama extremo, Lexus se mata. O encontro entre ambos os personagens e o impacto da morte de Lexus tiram Charlie de seu drama pessoal, levando-o a se abrir para o amor.

O filme ajuda-nos a refletir sobre a insustentabilidade de desejarmos o impossível, quando não aceitamos como somos ou rejeitarmos nossa condição humana. Lexus não aceitava seu corpo masculino, que abrigava sua alma feminina. Ele poderia ter ofertado seu amor feminino, mas não se exigir um corpo de mulher, que a natureza não lhe proveu e que nenhuma cirurgia no mundo poderia lhe dar. Uma operação, no máximo, deixaria o corpo de Lexus meramente semelhante ao de uma mulher. Quando alguém aceita e respeita sua condição pessoal, faz-se aceito e respeitado pelo outro e não precisa se moldar, adulterar-se e mutilar-se para ter o amor de que precisa.

Ao encontrar Rose, Jack tenta resgatar seu passado e o amor pela mãe de Rose, bem como aliviar sua dor e remorso por ter-se mantido afastado durante os 25 anos em que esteve na prisão. Ao saber que está com uma doença em fase terminal, aproxima-se de sua filha, o que lhe possibilita ajudar seu neto e realizar o grande sonho da filha. No fim, o homem redimido encontra-se com sua inocência. Powder Blue retrata o simbolismo da neve azul, do “azul” que torna mais leve a realidade crua e dura da vida.

Por Flávio Vervloet





Ao Entardecer

31 07 2009

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Sinopse
Ann Lord (Vanessa Redgrave) decide revelar às suas filhas Constance (Natasha Richardson) e Nina (Toni Collette) um segredo há muito guardado: que amou um homem chamado Harris (Patrick Burton) mais do que tudo em sua vida. Desnorteadas, as irmãs passam a analisar a vida da mãe e delas mesmas a fim de descobrir quem é Harris. Enquanto isso Ann relembra um final de semana ocorrido 50 anos antes, quando veio de Nova York para ser a madrinha de casamento de sua melhor amiga da escola, Lila (Mamie Gummer). Lá ela conhece Harris Arden, amigo íntimo da família de Lila, por quem Ann se apaixona.

Reflexões sobre o filme
Tema: Envelhecer, Escolhas, Livre-arbítrio

Um filme tocante que reflete a vida, seus acontecimentos, encontros e desencontros, o sentido da vida e de nossas existências.

Quem pode dizer, com certeza, que sempre fez, em determinada situação, a escolha certa ou errada? No momento atual – repleto de incentivos, estímulos e motivação para uma vida feita de escolhas, metas, decisões e alto desempenho –, esse filme, como muitos de seu gênero, questiona essas certezas. Não que não precisemos melhorar nosso desempenho e desenvolver a capacidade de fazer boas escolhas, mas será que podemos atribuir tamanho peso ou gravidade a nossas escolhas? Como viver pesando tudo entre certo e errado ou bom e ruim? Será que todos não desejamos as mesmas coisas, apesar de buscá-las em local e de forma diferente?

Em relação ao filme, quem está certa? A filha que vivia dentro dos padrões usuais de estabilidade profissional, matrimonial e familiar ou a que estava fora desses padrões? Anne, que tinha muitas expectativas na vida e que buscava ser livre para tomar decisões, ou Lila, que, mesmo sem amar, casou-se conforme o movimento e as sequências de acontecimentos de sua vida? Todas as nossas escolhas geram consequências, e é natural que assim seja. Mas como dizer que erramos só por que as consequências são ruins? Será que, de fato, poderíamos ter feito outra escolha? Em caso positivo, será que a teríamos sustentado ou evitado resultados insatisfatórios?

Nossas decisões são tomadas com base em somatório de forças internas e de tendências diversas, que são, muitas vezes, contraditórias. Nossas resoluções, em grande parte, são o resultado da ação da parte interna que mais pesou e tem força em nós. Mesmo querendo fazer a escolha “certa”, pesam, em cada escolha, nossos limites pessoais; crenças sobre a vida, sobre o outro e sobre nós mesmos; experiências pregressas; motivações internas; anseios pessoais; e, ainda, outras forças. Gostaríamos de ter a clareza que nos permitisse optar pelas escolhas perfeitas, e a força que nos permitisse sustentá-las, mas parece que a vida não é assim. Em todas as escolhas, teremos ganhos e perdas. Precisamos nos dar conta de que não há escolhas perfeitas. Portanto, fazer escolhas perfeitas não parece ser parâmetro muito útil. É necessário considerarmos que temos limites pessoais e que nem sempre podemos sustentar a vida com base nas escolhas que fizemos, por melhor que tenhamos escolhido.

Por tudo isso, fica muito difícil dizer que fizemos má escolha ou escolha errada em função de o resultado ter sido diferente do que desejávamos. No filme, a personagem Ann e sua amiga Lila refletem isso. Ann fez escolhas baseada em suas verdades, seguiu essas escolhas durante sua vida e deu o melhor de si. Sua vida foi plena e ela buscou, como pediu a suas filhas, ser feliz. É possível que, no fim da vida, tenha ficado com dúvidas sobre suas escolhas e se ressentido de algumas ações. Talvez na velhice, mais amadurecida pela própria experiência de vida, perceba alguns equívocos em seu discernimento e julgamento e em algumas de suas escolhas. O mesmo aconteceu com Lila. Como Ann, ela também fez escolhas com base em suas verdades e viveu conforme essas escolhas. Deu o melhor de si e sua vida foi, igualmente, plena. A vida de nenhuma das duas foi perfeita, como não o é a de ninguém. Buscamos todos as mesmas coisas: ser feliz e viver em plenitude, e parece que estamos todos a burilar e a aperfeiçoar nosso discernimento. Apesar dos receios, da incerteza e do novo, fazemos sempre escolhas, mesmo ao permanecermos no terreno do velho e do conhecido. O resultado de nossas escolhas dificilmente será perfeito. Mas, mesmo que o resultado não seja o que desejávamos, não significa que erramos, mas que tentamos e fizemos o melhor possível, que somos imperfeitos e que aprendemos na tentativa e no erro, aperfeiçoando o discernimento e a capacidade pessoal.

Outro ponto extremamente importante no filme é a reflexão sobre a culpa. A morte de Buddy muda totalmente a direção da vida de Ann e de Harris, que, presos na culpa, seguem caminhos diferentes dos que pediam seus corações. Se não trabalhamos a culpa, ela pode se tornar tormento e prisão, como no filme e na vida de muita gente. Sem adentrar o campo da Filosofia do Direito, é importante discernirmos o que de fato é nossa responsabilidade e, em cada caso, tomarmos cuidado para não assumir a parte do outro. É comum, nas pessoas muito responsáveis, a tendência à onipotência, a tomar tudo para si. É sempre importante lembrar que, além da sobrecarga que essa atitude gera, tiramos a responsabilidade e o poder pessoal do outro, tornando-o vítima, dependente e incapaz de gerir a própria vida, e passamos a carregar culpas que, muitas vezes, não nos pertencem. É um filme que vale a pena ser visto.

Por Flávio Vervloet





Vicky Cristina Barcelona

30 07 2009

vicky-cristina-barcelona07tSinopse
Vicky (Rebecca Hall) e Scarlett Johansson (Cristina) são grandes amigas que estão em férias em Barcelona. Vicky procura ser sensata em relação ao amor e está noiva, enquanto que Cristina sempre busca uma nova paixão que possa virar sua cabeça. Um dia, em uma galeria de arte, elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um atraente pintor que teve um relacionamento problemático com sua ex, Maria Elena (Penélope Cruz). Ainda naquela noite, durante o jantar, Juan Antonio se aproxima da mesa em que Vicky e Cristina estão, fazendo-lhes a proposta de com ele viajar para Oviedo. Vicky inicialmente a rejeita, mas Cristina aceita de imediato e consegue convencer a amiga a acompanhá-la. É o início do relacionamento conturbado de ambas com Juan Antonio.

Fonte: http://www.adorocinema.com.br/filmes/vicky-cristina-barcelona/vicky-cristina-barcelona.asp

Reflexões sobre o filme
Tema: Relacionamento
Subtemas: amor romântico , paixão.

Um filme apaixonante – Um belo lugar, lugares românticos, arte, espontaneidade, paixão em seus vários aspectos. Uma reflexão sobre os relacionamentos mornos e os encontros apaixonados. O anseio universal por um encontro amoroso romântico. Apesar dos compromissos com os “bons partidos” (homens e mulheres) e relacionamentos adequados, apesar da praticidade do mundo e de suas dificuldades, da falta de tempo e das uniões e relações superficializadas, o ser humano continua a sonhar, desejar e aspirar a intensidade das paixões ou dos encontros românticos.

O romantismo não morreu, mesmo que o comodismo, a rotina, a mesmice e a superficialização tenham entorpecido as relações. Apesar de tudo isto, esta força viva continua a se expressar, aparecendo de quando em vez surpreendendo e trazendo muitas vezes com ela tumulto, revolução de sentimentos e muitas vezes até mudança de vida.

Sem duvida, poetas, escritores e artistas em todas as suas expressões zelam e sustentam sua existência. Identificam-no como vida e a expressão de mil formas diferentes nas artes.

Mas todo o ser tem o mesmo dom de criar, se expressar e sentir, talvez não de forma tão brilhante, mas tem o poder de deixar que a vida se expresse numa pulsão e numa explosão de sentidos.

No filme tem uma reflexão interessante: ter um encontro amoroso tão intenso como o do casal de artistas não é uma garantia de poder sustentá-lo. A mesma situação foi mostrada no encontro afetivo do artista com Cristina e mais tarde no triângulo amoroso declarado. Em algum momento falta algo e o sonho não se sustenta.
Que ingrediente é este que falta? O que poderia fazer algo tão intenso e envolvente se manter vivo ou pelo menos possível? O que seria este “sal”?

Alguns autores diriam que este “sal” é o amor, o amor que inclui afeto, respeito mútuo, ternura, confiança, parceria, compartilhamento e ajuda mútua. Mas isto só é possível com muita coragem e entrega, o que é impossível em relacionamentos superficiais e acomodados e tambem para aqueles que são viciados na intensidade da paixão. Este sentimento só é possível a pessoas fortes e maduras emocionalmente. Este amor é coisa de adultos, de adultos emocionais.

Enquanto nossos sentimentos e emoções forem subdesenvolvidos, ou mesmo destrutivos, não há como sustentar a beleza dos relacionamentos.

Vivemos numa sociedade em que a prioridade da vida se recai sobre crescimento material e intelectual. O quanto investimos em vida pessoal, em vida emocional? Nos desenvolvemos material e intelectualmente através de muito esforço e dedicação. Por que achamos então que nos desenvolveremos emocionalmente de graça, isto é, sem esforço ou mesmo igual dedicação? Maturidade é fruto da experiência, da atenção voltada para o aprendizado a cada instante de nossas vidas. A maturidade emocional só se consegue da mesma forma, experimentando, vivendo, atento ao que acontece, atento ao que se sente, refletindo no que não deu certo, se apoderando de suas conquistas nesta área, buscando ajuda psicológica quando necessário, conversando com amigos e pessoas mais experientes, lendo sobre o assunto, interagindo com as pessoas, se expondo, e se expressando.

Nos relacionamentos, ter a sensação de que já se conhece tudo o que se tinha para conhecer, tudo o que se tinha para se desvendar no outro definha o sentimento. Enquanto existir algo a ser desvendado, há algo para se nutrir.

Autoconhecer-se, e então auto-revelar-se é uma forma de mantermos este alimento para os relacionamentos. Como o autoconhecimento é eterno, também poderíamos revelar-nos eternamente.

Quando esquecemos de nós mesmos e nos tornamos uma sombra do outro perdemos o brilho próprio e é natural que o outro se desinteresse. Portanto, apesar de existir outros fatores importantes, autoconhecimento e auto-estima são fatores mantenedores essenciais de um relacionamento aquecido. Mas tudo isto requer coragem para se autoconhecer, se preservar e se amar. E é necessário mais que isto, é necessário ter a coragem de viver, de se experimentar e se enfrentar.
Nem sempre é necessário romper com quem estamos, e sim romper com nossa acomodação interna, nosso medo de se entregar à vida e ao outro.

Este filme, como tantos outros, passa a mensagem que temos que continuar buscando a pessoa ideal, o par ideal e que o problema está em que não o achamos ainda. Esta busca exterior continua como na felicidade, algo a ser encontrado fora e não dentro de si mesmo. Será o outro e a vida as responsáveis pelo nosso desencontro? Quantos relacionamentos precisamos experimentar para encontrar a pessoa certa?

É possível até que já encontramos a pessoa “certa” e estamos a seu lado há muito tempo, mas transformamos este encontro em acomodação e rotina. Talvez a mudança tenha que ser feita em nós mesmos e na nossa forma de nos relacionar e não necessariamente trocando de parceria, apesar de que às vezes só nos resta enterrar o que já morreu ou que deixamos morrer.

É necessário ter a coragem para sentir e se entregar à intensidade da vida no outro, mas é igualmente necessário a coragem de se entregar ao outro na grandeza do amor que ao invés de intenso é profundo. Que ao invés de consumir e absorver o outro nos entregamos ao mesmo.

Por isso, é muito mais fácil gostar, ao invés de nos lançarmos à intesidade da paixão ou na profundidade do amor, é muito menos arriscado e menos trabalhoso. Mas como viver sem provar ou renunciar a intensidade ou a profundidade dos sentimentos?

Como viver sem sentir, se viver e sentir são a mesma coisa?

Por Flávio Vervloet





Um Beijo Roubado

30 07 2009

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Sinopse
Nova York. Jeremy (Jude Law) administra um pequeno café e restaurante. Muito irritada, Elizabeth (Norah Jones) descobre que seu namorado comeu lá com outra mulher. Zangada com a traição dele, ela rompe o namoro e deixa suas chaves com Jeremy, caso seu ex-namorado as queira de volta. Elizabeth retorna ao café várias vezes e ela e Jeremy começam a se sentir bem atraídos um pelo outro. Mesmo assim ela sai da cidade e então viaja de ônibus para Memphis, Tennessee, onde tem dois empregos, pois quer economizar para comprar um carro. Sem revelar onde vive ou trabalha, ela manda um cartão-postal para Jeremy, que fracassa ao tentar localiza-la. Elizabeth conhece pessoas como o policial Arnie Copeland (David Strathairn), que se tornou alcoólatra pois não aceita o fato de Sue Lynne (Rachel Weisz), sua esposa, tê-lo deixado. Elizabeth testemunha o trágico desdobramento desta separação e, já em Nevada, conhece Leslie (Natalie Portman), que adora jogar pôquer por garantir que sabe “ler” o rosto das pessoas.

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/beijo-roubado/beijo-roubado.asp

Reflexões sobre o filme
Tema: Relacionamentos
Subtema: Dificuldade de deixar ir, de que a vida siga seu fluxo e de lidar com perdas.

O filme trata de personagens incomuns, sensíveis e humanas.Elizabeth sofre uma perda afetiva e tenta entender o porquê. Não se conforma com o acontecido, não conseguindo se vê sem aquela pessoa em sua vida. O policial Arnie Copeland se tornou alcoólatra, pois não aceita o fato de Sue Lynne sua esposa, tê-lo deixado. Sue Lynne se afasta do marido que a sufocava, ansiava se ver livre dele e com sua morte sente a dor de não ter mais a garantia de seu amor. Todos com dificuldade de deixar que a vida siga seu fluxo após uma perda afetiva.

Uma jogadora profissional, Leslie, que adora jogar pôquer por garantir que sabe “ler” o rosto das pessoas, mas que não conhece sequer a si própria, tem uma relação difícil com o pai que a ensinou a não confiar em ninguém. Também com dificuldade de deixar o passado de sua relação com este pai a que se mantém presa até a vida adulta, apesar de se achar livre.

Um pote de chaves perdidas à espera de fechaduras para serem abertas que Jeremy mantinha como uma forma de se manter ligado a Katya, seu antigo relacionamento que lhe falou sobre a importância de manter estas chaves guardadas.

O filme traz uma reflexão, sobre a importância de liberar o passado para viver o presente. Como se abrir para o novo ainda preso no passado? como se abrir para um novo relacionamento ainda com o coração ocupado pelo vinculo desfeito ou que não deu certo?É natural que levemos um tempo para cicatrizar nossas feridas, tempo esse que varia de pessoa para pessoa. Mas é comum muitas vezes prolongarmos este tempo e nos apegarmos ao passado, ao conhecido, mesmo que não tenha sido assim tão bom. Agarramo-nos ao conhecido porque, esse podemos controlar e aparentemente evitarmos o sofrimento. Nos fechamos para o novo na esperança de não sofrermos e muitas vezes sofremos ainda mais, remoendo a dor da perda.
Se permitir o luto da perda na maioria das vezes é a melhor forma de processarmos esta perda. Senti-la, vive-la, expressa-la até que ela seja absorvida e a experiência ganhe um sentido maior. Mas ao negá-la ou nos apegarmos a ela nos a prolongamos e a mesma não pode ser integrada.

Outra mensagem significativa do filme é a das tortas de blueberry que nunca são comidas porque todos preferem as de outros sabores, mas que todos os dias, mesmo assim, são feitas novamente, na insistência que lembra a importância do valor de todos os sabores e a importância das diferenças individuais. Traz para reflexão sobre o valor e a riqueza das diferenças. A importância de considerarmos que apesar dos sabores conhecidos e buscados, eleitos como os desejáveis, há também os sabores exóticos, incomuns que são muitas vezes os inesquecíveis. Todos nós temos, além de nossos sabores/qualidades comuns e expostos porque desejáveis pela maioria, sabores/qualidades incomuns e raros que nos fazem únicos. Se nos prendemos ao comum e conhecido como podemos provar o inusitado e inesquecível? A espontaneidade mora por traz do ato e comportamento comum e por isto mesmo seguro, mas como acessar a espontaneidade se agarrando no conhecido e seguro?

Elizabeth no filme ousava na sua diferença ser esta torta de sabor distinto de todas as outras e Jeremy também se identificava com esta diferença, por isto insistia em mantê-la pronta em oferta apesar de não comê-la. O nome do filme (My Blueberry Nights) é uma referencia a importância desta diferença rejeitada por ser incomum, mas de igual valor.

Por Flávio Vervloet





Show de Truman

30 07 2009

64Sinopse
Pacato vendedor de seguros (Jim Carrey) tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que é o astro, desde que nasceu, de um show de televisão dedicado a acompanhar todos os passos de sua existência.

http://www.adorocinema.com/filmes/show-de-truman/show-de-truman.asp

Reflexões sobre o filme

Muitas reflexões poderiam ser feitas neste filme, mas ficando com os aspectos psicológicos gostaria de refletir sobre o que se chama de auto-imagem. Um dos momentos mais dramáticos do filme Thrumam ele pergunta: tudo aquilo não foi real?
Esta sensação de ter sido enganado, de que tudo não passou de uma fantasia e que de uma hora para outra o que acreditávamos foi colocada em dúvida, a maioria das pessoas em algum momento já sentiu e se ainda não, é possível que venham sentir.

O que tem o show de Thrumam a ver conosco? Ele vivia uma realidade criada e mantida pelo seu idealizador, que o levava a pensar que era real. Thruman construiu sua realidade e a percepção de si mesmo, sua auto-imagem, a partir dos estímulos de seu meio que foi inventado e era falso. Da mesma forma criamos nossa realidade e percepção de nós mesmos a partir dos estímulos do nosso meio, principalmente na infância, e muitas destas construções são interpretações distorcidas da realidade vivida.

Nossas crenças sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo são construídas principalmente nesta fase e reforçadas depois ao longo de nossa vida. Criamos uma auto-imagem que de uma certa forma nos garante ou pretende garantir a nossa sobrevivência e a nossas adaptação ao nosso meio. Esta adaptação ou pretensa solução visa a tornar nossa vida mais fácil e é moldada pelo convívio com nossos pais, ou tutores, familiares, parentes, professores e amigos.

Passamos desde então a acreditar que o que acreditamos sobre nós mesmos, sobre o outro e o mundo é totalmente real e verdadeiro até que a vida e os acontecimentos mostrem algo diferente,e isto as vezes faz nosso mundo virar. O Show de Thrumam é um laboratório do que acontece naturalmente em nossas vidas. Colocaram uma pessoa ao invés de um rato como cobaia de um experimento, só que os motivos aparentemente foram outros. Seu idealizador colocou justificativas filosóficas para brincar de Deus.

Podemos aqui fazer algumas perguntas a nós mesmos: tudo o que acreditamos sobre a vida, nós mesmos e os outros é de fato verdadeiro? O que buscamos ardentemente na vida são de fato nossas necessidades? O que fazemos, nosso trabalho é de fato algo que tem a ver conosco? Somos somente o que percebemos sobre nós mesmos e o que é confirmado pelos outros? Responder estas perguntas é importante para não ficarmos sem chão no futuro. E se não temos as respostas, talvez importa refletir nas perguntas até que algo se clareie.

Por Flávio Vervloet





Shakespeare Apaixonado

30 07 2009

56

Sinopse
Shakespeare (Joseph Fiennes) sofre um bloqueio que o impede de escrever sua mais nova peça, uma história de amor com fim trágico. Tudo muda quando ele se apaixona por Lady Viola (Gwyneth Paltrow) e passa a utilizar suas tentativas de seduzi-la como inspiração.

Fonte:http://www.adorocinema.com/filmes/shakespeare-apaixonado/shakespeare-apaixonado.asp

Reflexões sobre o filme
Tema: Relacionamento
Subtema: Amor Romântico, dificuldade de sustentar o amor, sobrevivência dos bons sentimentos mesmo na perda afetiva

O filme retrata, como a peça de Shakespeare, o amor romântico e o amor impossível. Este tema traduz um dos grandes sofrimentos do ser humano: a sua dificuldade de encontrar, viver e sustentar o amor. Da mesma forma que no texto de Shakespeare e no filme, na vida, o amor é comumente frustrado. Quem não sofreu a frustração de um amor que é “impedido”? No texto, impedido pelo destino, pelos fatores externos e sociais, da mesma forma que na vida de muitos casais. Porém mais comumente é impedido pelos nossos próprios equívocos e distorção internas.

A frustração do amor e seu impedimento é uma vivencia universal e arquetípica, é uma dor que já passamos ou iremos passar. Transformamos o amor romântico em fantasia, em um desejo de amor perfeito, absoluto e curador de todas as nossas carências e feridas íntimas.

Acontece que, com o convívio, os príncipes viram sapos e as princesas se tornam bruxas, as fantasias se quebram e o coração humano se despedaça. Isto confirma que o amor romântico não existe? Ou demonstra nossa imaturidade para sustentá-lo? Será que por trás do amor fantasioso e tão frágil não existe um amor mais realista e poderoso? Será que, se existe esse amor, ele não tem que acolher a imperfeição humana e da vida, não tem que acolher os dois lados da dualidade? Um amor que aceite e sustente falhas humanas e emoções diversas, boas e difíceis sem destruição mútua.

O filme, diferente da peça original de Shakespeare, traz um outro possível final menos trágico e dramático (onde morrem os amantes), não que a vida não possa comportar a tragédia. Este final alternativo indica um amor que não morre com a impossibilidade e o afastamento. Um amor que sobrevive a perda e talvez até ao fracasso do relacionamento. Um amor que guarda na memória os momentos bons do que foi vivido e experimentado e procura viver a vida da melhor forma possível, se desligando do passado, mas não do bom fruto deste passado que pode permanecer vivo como um tesouro conquistado e que traz com ele luz para outras experiências do presente e futuro.

É sustentar o bom sem destruir o sentimento para suportar a dor. Quando destruímos o bom, o bem vivido, o fazemos na esperança de sustentarmos a perda e a dor, mas igualmente soterramos a esperança de amar e colorirmos de novo a vida.
É muito comum as pessoas desesperadamente concluírem que nunca amaram quem perderam, e se desfazerem de tudo para seguirem em frente, mas aos pedaços. Será que precisamos destruir o que nos frustrou? Será o amor o culpado ou são nossas ilusões e fantasias as responsáveis pelas nossas dores? Amor é sentimento, é um ato de entrega e coragem. Coragem não necessariamente para se lançar ao sabor dos sentimentos e impulsos, mas coragem de enfrentar a si mesmo e as próprias ilusões infantis.

Por Flávio Vervloet